25 Novembro 2009

"É impossível? Não."

Dizia ontem Norton de Matos que "todas as emoções vão estar em Camp Nou. Quem diria que um dos gigantes, Barcelona ou Inter, pode ficar eliminado! Basta os russos do Rubin, moralizados por repetirem o título de campeão russo, ganharem em casa para, independentemente do resultado em Barcelona, estarem em posição privilegiada para se apurarem. José Mourinho tem razão quando diz que os 9 pontos dão a qualificação. E o Inter é a única equipa que pode garantir essa pontuação nesta jornada. Mas tem de ganhar ao Barcelona. Impossível? Não. A tradicional organização das equipas que orienta, aliada à experiência dos jogadores que dirige e à extrema motivação que este jogo suscita pode contrariar o favoritismo de uma equipa catalã que é menos impressionante que na época passada".

Ontem dizia A Norte de Alvalade que o jogo de ontem entre Barcelona e Inter, face às esperadas ausências de Zlatan Ibrahimovic e de Leo Messi, me suscitava redobrado interesse. É que não seria fácil para nenhuma equipa do Mundo jogar contra uma equipa italiana, para mais o campeão italiano, o líder incontestado do campeonato e uma equipa aparentemente mais forte que na época passada, sem 2 jogadores que constariam de qualquer top-10 mundial. Não seria fácil para nenhuma equipa, menos para o Barcelona.

Porém, quando se tem uma identidade própria, quando se têm princípios de jogo bem enraizados, quando se joga futebol com inteligência e não com a força do físico, as individualidades empalidecem perante a força do colectivo. Era o que pretendia verificar ou demonstrar no jogo de ontem. É o que qualquer observador ou adepto de futebol deveria reparar: é que no futebol, desporto colectivo que é, a beleza e eficácia não está nos orçamentos, nem nas individualidades, tão pouco nas despesas em contratações. Está na capacidade de ter a bola, de a saber colocar nos espaços, de a saber conservar, de saber atacar a baliza adversária ou de roubar o espaço quando o adversário tem a bola. Isto é futebol. O resto é conversa para distrair.

O Sporting nunca terá o poderio desportivo e financeiro do Barcelona, mas há algo em que pode sempre ombrear: na força da sua identidade, na certeza dos seus princípios de jogo, numa cultura particular, que só poderia nascer em de verde e branco.

É o Modelo Sporting a que o Sporting nunca (mais) poderá voltar as costas.

Modelo Sporting

Equipa é quando o todo é superior à soma das partes.

Futebol é isto: [sobre Eto'o] "No cambia mi opinión sobre él lo que pasó hoy. Es un gran jugador. Pero nosotros queremos tener el balón para que los mejores jugadores del contrario intervengan menos. Por eso Víctor juega con los pies, pese al gran riesgo que ello acarrea y más ante dos de los mejores delanteros del mundo yendo al espacio".

Queremos a posse de bola de volta a Alvalade. Temos jogadores para ter a bola e mandar nos jogos.

22 Novembro 2009

Dia 1 para Carvalhal

Algumas notas sobre o que tem acontecido nos últimos dias. A 1ª nota é que a razão pela qual não pude postar ontem é que tive oportunidade de ver pela 1ª vez os Iniciados A (a geração de Cristian Ponde), seguido do jogo dos juniores em Alcochete (em que se contavam, entre os espectadores, José Lima e Rui Dias). E agora não terei tempo para mais porque estou de saída para o jogo dos Juvenis A e, pelas 17h45, para o Restelo.

Do mais ao menos importante:

1. CC em conferência de imprensa – CC mostrou porque não havia razão para temer uma normal apresentação. Disse o que se esperava, o que (eu) desejava) e encarou o desafio de treinar o Sporting nos próximos 6 meses de frente. CC é o presente do clube.

2. Movimentações de mercado – Apesar de CC ter dito que todos partiam do zero (o que vale para Stojkovic vale também para jogadores que têm tardado em revelar os seus predicados), que iria ser feita uma avaliação do valor dos jogadores que compõem o plantel, referiu existir disponibilidade da Direcção/Administração da SAD em contratar jogadores em Janeiro.

Apesar de declarações honestas e compreensíveis (PB e JEB haviam dito que estavam identificadas as lacunas e que se tentaria, no mercado de inverno, reforçar o plantel), este foi um erro de CC. Pelo ciclo competitivo que se avizinha, pela natural desconfiança dos jogadores relativamente a uma nova liderança e porque – muitas vezes e como se pode constatar pela notícia acima linkada – pagam os baratos pelos caros.

Dispensar CS9 e AM55 é um duplo erro. O 1º vale tanto quanto o FC11, é do clube e deverá ser substancialmente mais barato por mês. O 2º vale mais que o LG18 e tem as características adequadas a um 4-3-3 ou um 4-1-2-1-2 que CC pretenda instituir em que os laterais dêem apoio ofensivo.

E por isso, o melhor mesmo era dizer que não se falava de contratações até dia 2 de Janeiro e que qualquer notícia até lá seria pura especulação. Era mau para os jornais, seria bom para o Sporting.

3. Pescadores – SportingPrevê-se a continuação do 4-1-2-1-2, o que se compreende mas que também acho um erro. Por duas razões: em 1º lugar, porque os próprios jogadores devem sentir a necessidade de mudar de rotinas, em 2º lugar, porque se prepara um ciclo difícil que não se quer jogado com os mesmos defeitos e virtudes que nos levaram ao momento actual. Seria, portanto, de começar desde já a mudar o modelo de jogo.

Mas ainda que não mude o modelo de jogo, CC deve ter em atenção 3 aspectos: (i) utilização dos laterais para oferecer largura ao jogo, fixando os interiores a posições centrais, (ii) procurar a circulação da bola no centro do terreno na zona 10 e nos avançados, por forma a desposicionar a equipa adversária e (iii) criação de um bloco intermédio compacto, 10 metros (apenas) acima do que a equipa costumava fazer.

Para já, era só mudar isto: o facto dos interiores não correrem para a linha mudaria drasticamente o cariz do futebol ofensivo do Sporting, mantendo-se o losango. Isto foi o que PB nunca percebeu.

4. Entrevistas – Ainda me falta a entrevista de MRT ao Sol. Mas desde já se destaca a hipocrisia de quem se queixava de ingerências externas, ao colocar em causa desde o princípio as condições que os próprios disseram querer oferecer ao clube. Quantas mais entrevistas PB, Barbosa ou MRT derem, menos consideração ou apreço terão dos sportinguistas. E para alguém, como eu, que não os podia ver mais à frente do clube, isso é interessante. Sobretudo porque o Sporting precisa de gente nova.

E por isso também Rogério Alves errou ao responder. Se mantivesse as suas declarações do dia de saída de PB, manifestasse incompreensão sobre como poderia ter influenciado o rendimento da equipa e resguardasse o seu direito à opinião, ficaria claramente por cima. Assim parece oferecer alguma razão ao queixume do ex-técnico.

Bom… Altair, Betinho, Mateus, João Mário, João Carlos e Esgaio esperam-me.

19 Novembro 2009

Duas boas notas

Ontem num dos jornais desportivos que CC exigira mais agressividade aos jogadores do Sporting. No meu wishful thinking actual quis acreditar que a notícia havia sido fabricada pela Comunicação do Sporting para aproximar os adeptos da equipa: não há melhores argumentos para quem não percebe de futebol do que os proverbiais "não correm" e "não têm qualidade".

Por isso, tendo torcido o nariz ao conteúdo - mas não à forma - obriguei-me a esperar para ver que tipo de "agressividade" CC procurará incutir na equipa. Se uma "agressividade individual", baseada na procura dos jogadores do seu adversário directo para marcar, ou se uma "agressividade colectiva", fundamentada na redução colectiva dos espaços ao adversário e na criação de situações de equilíbrio defensivo traduzidos por uma maior proximidade entre jogadores, que permita defender num bloco intermédio.

E, porque a única agressividade que conta em (bom) futebol é a agressividade colectiva, fiquei muito contente com o que vi aqui: " «Mais dinâmica de jogo… pressão e cobertura, com ocupação dos espaços", pediu o técnico aos atletas, depois de manifestar como desejo que a equipa possa criar situações de superioridade numérica perante os opositores: "Ter sempre dois jogadores perto do portador da bola… situações de dois contra um. O adversário tem que sentir que estamos por perto…", sublinhou». Parece ser a agressividade certa.

E ainda mais contente fiquei quando vi esta outra notícia, que entronca no que havia aqui referido. Acreditasse ou não, esta mensagem «Os empréstimos de Danny ou Quaresma foram equacionados na era Bento e era bem recebidos por Villas Boas. Carvalhal não dirá que não, mas para já quer conhecer bem o plantel e ver o comportamento dos jogadores em jogo. A palavra de ordem "é trabalho"» é exactamente aquela que CC tinha de passar para conquistar o público e o balneário.

Seria ainda melhor se dissesse em conferência de imprensa no lançamento do jogo com o Pescadores algo como “Qualquer treinador sonharia ter jogadores daquela qualidade, mas pelo que vi dos nossos jogadores, nos treinos e nos jogos que fizeram no Sporting, não lhes seria fácil entrar no 11. Os jogadores e eu estamos empenhados em trabalhar todos os dias para que a mera ideia de contratações deixe de ser ventilada para colmatar lacunas, mas para criar valor”.

Isto era de homem.

18 Novembro 2009

Lima e o trabalho em equipa

Hoje, noticiou-se algo mais do que a entrada de José Lima para a equipa técnica de CC, referiu-se que ficaria responsável pela organização ofensiva da equipa.

Pouco se disse sobre esta transição do treinador principal dos juniores para a equipa técnica da equipa principal. A opção por Lima foi, na minha opinião, uma escolha sensata que merecia ter sido explorada junto dos media.

Em 1º lugar, a ascensão de Lima à equipa principal enquadra-se na filosofia do clube: antes de si, PB tinha passado pelos juniores e, antes dele, Luís Martins transitara para a equipa técnica de José Peseiro oriundo dos escalões de formação do clube.

Esta opção não deve ser entendida como um mero aproveitamento dos recursos internos no clube, mas uma opção pela integração estrutural da formação no plantel principal para lá dos jogadores. Esse objectivo, com PB, era atingido através de quase todos os elementos da sua equipa técnica: Ricardo Peres e Leonel Pontes, além de terem passado na estrutura de formação do clube, haviam trabalhado com PB no escalão júnior e, portanto, podiam assegurar a necessária coordenação entre o Dept. de Futebol sénior e os escalões de formação do clube.

A obediência a este princípio de integração obrigatória e sistemática dos ideais da formação na estrutura do futebol profissional, missão que agora pertence a José Lima, tem portanto esta dupla função: a de assimilação pela nova equipa técnica dos métodos e tradições praticados nas estruturas de base do clube e a indicação, para dentro dessa estrutura de formação, que é útil trabalhar dentro do clube e que o (bom) trabalho será retribuído através do crescimento profissional.

Mas a opção por Lima traz mais do que isso: traz o conhecimento próprio de quem treinou vários dos jogadores que actualmente compõem o plantel principal, assim como o conhecimento dos jogadores que militam no escalão júnior e de outros que estão actualmente a fazer o seu tirocínio fora do clube. Lima poderá ter chegado ao Sporting a meio da época 2006/2007, mas pelas suas mãos passaram muitos jogadores com vínculo ao Sporting. DC3, RP1 e AS6 foram por si treinados, João Gonçalves foi por si desviado para a lateral direita, foi com Lima que o André Santos fez as suas primeiras aparições na equipa no seu 1º ano de júnior, foi Lima quem adaptou Owusu a avançado-centro e concedeu a titularidade ao Wilson Eduardo em detrimento do (entretanto dispensado, mas anteriormente promovido ao plantel sénior por PB) Luís Paez. E a lista poderia continuar, para destacar méritos ou conhecimento de um bi-campeão Lima, que apenas baqueou – e segundo consta, perante condições muito adversas em deslocações ao Norte – na sua 1ª época como treinador principal da equipa de juniores, quando tinha a melhor equipa das que lhe passaram pelo seu comando técnico. E o campeão FCPorto contava com jogadores como Ukra, Castro, Candeias, Rui Pedro e Ventura…

Lima, no seu comando técnico nos juniores do Sporting, não tem sido consensual. Eu próprio tive dúvidas sobre algumas decisões e a sua capacidade. Mas paulatinamente fiquei rendido ao seu trabalho, quer do ponto de vista técnico-táctico, quer do ponto de vista humano. Por exemplo, Lima soube recuperar um jogador que em Alcochete parecia perdido, Bruno Matias, e relançá-lo para o profissionalismo. A mutação de Bruno Matias, mas sobretudo a sua assunção de um papel importante no seio da equipa júnior 2007/2008, foram obra do trabalho da equipa técnica de Lima. Este ano não tenho tido oportunidade de ver muitos jogos da equipa júnior, mas o que já pude ver do Amido Baldé e do Henrique Gomes, denota que o trabalho feito pela sua equipa técnica – quer do ponto de vista da movimentação, quer do ponto de vista das decisões – tem imenso de meritório, porque estes eram dois diamantes verdadeiramente brutos.

Foi por isso que vi, com muito contentamento, a sua promoção à equipa técnica de CC. Tenho dúvidas que – em futebol – se possam distinguir treinos ofensivos e defensivos, mas CC estará lá para assegurar a coordenação destas duas componentes complementares do jogo (que contradizem o que um treinador uma vez me referiu, que no futebol só existe uma táctica: atacar, o espaço e a bola, com e sem ela).

Lima deve, portanto, aproveitar o capital de experiência adquirido e fazer valer a sua personalidade e as suas ideias. Porque o Sporting precisa de novas ideias e – sobretudo – da confrontação de ideias para retomar o caminho do sucesso. O Sporting precisa de uma equipa técnica que produza uma solução para o exterior, mas várias no interior. O Sporting precisa de ter mais do que uma ideia de jogo.

Ao Lima, como ao CC, as maiores felicidades nesta sua nova etapa. A sua felicidade será a nossa.

17 Novembro 2009

A vertigem

CC, vamos ver se nos entendemos. Começaste bem, fizeste praticamente tudo aquilo que o senso comum ditaria. Só não insististe em algo que me parecia fundamental para ganhar a equipa: que não precisas de contratar jogadores porque aqueles que o Sporting tem são bons e mais do que suficientes para, com um pouco de confiança, pôr o Sporting no rumo das vitórias. Ou melhor, falaste da confiança e do rumo das vitórias, da qualidade dos jogadores, mas não disseste que não quererias contratações. É um erro. Pouco grave, uma vez que não és tu quem faz as contratações, mas é um erro porque imputa à tua vontade, contratações difíceis de concretizar. E isso pode abalar a tua legitimidade e autoridade, logo quando menos precisas.

Sejamos objectivos, quem não gostaria de ver a seguinte equipa em Alvalade?

RP1; MC12, DC3, AP4 e AM55; MV24, JM28 e MF14; Danny, Quaresma e L31.

O velho 4-3-3 de volta a Alvalade, com intérpretes de grande qualidade, a jogar à largura do campo e com extremos mágicos, capazes de sentar o adversário e simultaneamente fazer levantar o público… seria um sonho. Mas é um erro. Para ti, CC, e para o Sporting.

Porquê? Porque os plantéis e as equipas não se constroem de soluções provisórias e esse 4-3-3 deixaria o Sporting órfão na próxima temporada de dois dos seus jogadores mais importantes. E, portanto, para o Sporting seria mau, pois (i) criaria soluções difíceis de substituir, criaria nos adeptos uma dose de desconfiança na equipa na próxima temporada, (ii) constituiria um forte investimento (em salários elevados) numa época que apenas não está perdida no que respeita às taças, e – sobretudo – (iii) consistiria na valorização de jogadores de outros clubes em detrimento dos jogadores do próprio clube.

Trazer ambos, Danny e Quaresma, seria portanto um erro enorme. Trazer apenas um deles já não seria um erro (tão grande)… porque seriam mitigados os aspectos negativos acima referidos.

Mas seria também um erro para ti, CC, porque terás pela frente um plantel extenso, em que aqueles jogadores que jogavam com PB esperam manter-se na equipa e aqueles que não jogavam esperam passar a jogar. Se lhes enxertasses dois jogadores de €30M na equipa, os ex-titulares e os suplentes ficariam sem esperança de jogar. E não é, com certeza, esse o cenário que esperas. Muito menos quando ainda falta tanto tempo para a reabertura do mercado e se aproxima um difícil ciclo de jogos.

Portanto, CC, vamos lá ver se ensaiamos em conjunto:

“Não quero nem ouvir falar em contratações durante o próximo mês e meio. Aliás, talvez nem queira ouvir falar de contratações depois desse mês e meio. Seria mais fácil, para mim, vir para o Sporting para contar com dois jogadores como Quaresma e Danny, pois aligeiraria a minha responsabilidade… Mas não é isso que pretendo, estão longe de ser essas as condições que me propuseram e nem sequer é isso que entendo que servirá os melhores interesses do clube a médio prazo. Vim para o Sporting para poder contar com o YD20, o MI7, o SV10, o BP25 e o MA17, todos internacionais pelos seus países, todos jogadores de grande qualidade, que me dão a confiança de que o Sporting pode jogar o futebol que os seus adeptos pretendem. Para mim é um orgulho poder treinar jogadores deste calibre, com estas condições de trabalho. Com um bocadinho de sorte e muito trabalho, acredito que vários deles podem chegar ao nível do Danny e do Quaresma, que é altíssimo. A única coisa que exijo, é aos jogadores, que acreditem em si mesmos”.

Vá lá, não custa nada.

16 Novembro 2009

Este homem é um mister!

Ok. Nada como começar com o pé direito (apesar de o terem empurrado para a porta).

CC disse o que era necessário: que está ao dispor do Sporting, que irá dedicar-se ao clube 24h por dia, que mudará os métodos mas que tentará conservar o bom legado deixado pelo seu antecessor, que com a ajuda dos adeptos tentará repor os níveis de confiança e, com isso, o clube no rumo das vitórias e que quer os sportinguistas de volta ao estádio e, para isso, promete tudo fazer para que se divirtam a ver futebol.

As muitas coincidências com o que havia aqui sugerido só podem ter uma explicação: o bom senso de CC ainda não se deixou a(in)fectar pelo estranho vírus que assola por Alvalade e, em casos de delírio extremo, leva as pessoas a perder a noção do ridículo e a substituir liderança por um par de maracas.

E, portanto, mister… pode contar comigo! No próximo Domingo lá estarei no Restelo.

Ah! E sabe o que era de homem?! Era ir ao Andebol na 4ª-feira. Vamos lá aproximar-se dos adeptos!

Os trabalhos de Carlos Carvalhal

Como aqui se refere, o choque e a consternação pela escolha de CC deve-se mais à errada gestão das expectativas do que às condições em que este treinador entra para o Sporting – i.e., de forma a assegurar a transição até ao final da época e para suportar uma pesada herança.

E porque o sucesso de CC será o sucesso do Sporting, porque a devolução da alegria aos jogadores significará o regresso da felicidade aos sportinguistas, por muito desagradados que possamos estar com as circunstâncias que envolveram a sua contratação (da referida gestão das expectativas à estranha incapacidade financeira do clube), devemos dar o crédito a este técnico que – na minha opinião – está entre os melhores portugueses. Devemos dar o tempo necessário para que possa ajudar o Sporting, quer com os resultados imediatos do seu trabalho, quer na projecção da próxima temporada.

O que fazer no imediato? CC terá as seguintes prioridades:

1. Conquistar o balneário, conquistar os jogadores – Deve ser a sua 1ª prioridade.


É altura de fazer estes jogadores sonhar com o que são capazes de fazer. O discurso deve ser motivador e procurar conhecer junto dos jogadores, que acrescerá ao diagnóstico efectuado por PB e Barbosa, o que o próprio CC tem de fazer para mudar o rumo dos acontecimentos. CC deve, numa 1ª hora, prometer aquilo que os jogadores não têm conseguido nos últimos anos: a sua própria valorização, a colocação do colectivo em defesa das melhores características de cada um. Em ano de Mundial, em que 4 dos jogadores titulares (RP1, MV24, JM28 e L31) perspectivam um lugar na convocatória, em que outros poderão sonhar com uma (inesperada) chamada – como DC3 – existe um incentivo grande em devolver a responsabilidade a estes elementos pela melhoria da qualidade de jogo.

Conquistar o balneário, unir a equipa, passa também por aceitar e enaltecer o passado sob o comando de PB. Enaltecer as qualidades – também técnicas – do seu antecessor será assegurar uma continuidade necessária no trabalho efectuado pelos próprios jogadores que, seguramente, se consideram responsáveis pelo mau momento. Dizer que poderão mudar métodos, mas que se pretende o espírito de equipa e a combatividade existente com o técnico anterior, será uma forma de conquistar os jogadores. Uma vez que CC tem a sua posição fragilizada junto de todos, a melhor forma de capitalizar sobre essa fragilidade é a conquista da confiança pela assimilação das ideias anteriores e não pela sua rejeição. CC não poderá aparecer como o milagreiro com a solução mágica, mas como alguém que – com métodos diferentes – tentará atingir o objectivo que todos desejam. E, para já, o objectivo só pode ser um: ganhar a confiança em campo.

E, para conquistar o balneário, CC deve também dizer que não precisa, nem quer (embora se sujeite aos critérios técnicos do clube), jogadores novos: que conhece os jogadores do Sporting, sabe o seu potencial, pensa saber como poderá extrair o melhor rendimento de cada um e , devolvida a confiança, que um plantel com naipe de jogadores que o Sporting tem pode realizar um futebol de grande qualidade. A sua prioridade, assumida para dentro e para fora, deverá ser a de rentabilizar ao máximo o potencial de cada jogador antes (sequer) de pensar em recorrer ao mercado.

2. Conquistar o público, conquistar os sportinguistas – CC tem de saber que não seria a escolha de nenhum sportinguista. E pode usar isso a seu favor.

Em 1º lugar, deve agradecer a oportunidade que o clube lhe está a conceder. E deve fazê-lo reconhecendo que o seu percurso recente é susceptível de levantar dúvidas quanto às suas capacidades e que ponderou isso mesmo antes de aceitar o convite. Deve esclarecer porque aceitou fazê-lo e deve apresentar pelo menos as duas seguintes razões: porque (i) um convite do Sporting é praticamente irrecusável e porque (ii) o presidente do Sporting lhe apresentou um cenário em que entendeu que poderia ser útil, em que se procuravam novas soluções metodológicas para enfrentar uma crise que lhe parecia ser (sobretudo) de confiança. CC deve dizer, nesse sentido, que está no Sporting exclusivamente para devolver a confiança aos jogadores e que, tendo assumido um compromisso firme durante os próximos 6 meses (em que as insuficiências da equipa terão de lhe ser imputadas), deixará à consideração dos dirigentes do Sporting a sua continuidade.

Em 2º lugar, CC deve colar-se publicamente ao trabalho realizado por PB, por forma a conquistar a confiança daqueles (muitos) que viram a partida deste com tristeza. Deve elogiar o trabalho efectuado, deve referir que é uma pesada herança e que a sua saída terá sido marcante para o Sporting e para o futebol português, mencionando ainda que não pretende impor o mesmo estilo de liderança, mas que pretende conquistar junto dos adeptos o mesmo respeito pelo sua dedicação ao trabalho. E, como todos os avançados, CC deve prometer apenas trabalho, muito trabalho e no limite das suas capacidades.

Em 3º lugar, CC deverá pedir algum tempo aos sportinguistas e reconhecer que esse é o pedido mais difícil: pois é um privilégio que nenhum treinador tem sem apresentar bons resultados (o que seria um elogio implícito a PB). Mas poderá justificar esse tempo com o pouco tempo de trabalho efectivo que terá para, em competição e mudando os métodos, fazer passar as suas ideias. Em contrapartida, deverá referir que a qualidade dos jogadores do Sporting permite ambicionar que as suas ideias serão rapidamente assimiladas e que espera poder crescer, pessoal e profissionalmente, em conjunto com a equipa.

Em 4º lugar, e em função das notícias que dão conta que
Lima integrará a sua equipa técnica, deve anunciar que se identifica com o projecto do Sporting e que vê grandes valores a despontar na sua formação, jogadores que serão o orgulho dos portugueses a médio prazo, e que é um privilégio trabalhar num clube que oferece as condições humanas e materiais do Sporting. A integração de Lima permitirá igualmente fazer apelo em Janeiro, caso necessário, aos juniores ou a ex-juniores, de forma a equilibrar o plantel em soluções.

3. Conquistar a imprensa e os comentadores desportivos – CC precisa também de uma estratégia de comunicação a curto prazo para defender a legitimidade do seu trabalho e a sua margem de manobra no clube.


Tem de defender os (agora) seus jogadores, mostrar-se totalmente solidário com o clube e as suas opções, i.e., mostrar-se de uma disponibilidade semelhante à de PB. CC precisa de construir a imagem de trabalhador humilde, mais do que a de salvador do Sporting. Precisa, por isso, de dizer que espera oferecer aos jogadores a possibilidade de conquistarem os seus objectivos individuais esta temporada, que espera preparar com afinco a próxima temporada para o futuro treinador – que poderá não ser ele! – e que espera devolver a alegria aos sportinguistas, que espera voltar a uni-los com a equipa.

E, para tal, espera que todos os sportinguistas, dos mais aos menos conhecidos, estejam com a equipa e a empurrem para o caminho das vitórias. O seu apelo à união, por ser novo e como que uma condição prévia da susceptibilidade de implementar os seus métodos e as suas ideias, poderá merecer acolhimento de uma franja enorme dos adeptos. Para isso, deverá fazer a ronda dos programas desportivos, tal como PB fez após a sua saída, por forma a devolver aos sportinguistas uma ideia de rumo que ficou interrompido…

Os sportinguistas precisam de voltar a acreditar e uma boa comunicação é meio passo no bom sentido. Nunca é tarde para voltar a falar ao coração dos sportinguistas.

15 Novembro 2009

Do céu à terra à distância de um clic

A escolha de um treinador deve obedecer a critérios técnicos – pois é uma função técnica que está em causa – e portanto deveria ser relativamente indiferente do meu (ou do nosso) estado de espírito. Mas não é. Procurarei explicar porquê ao longo deste post surpresa.

Ponto prévio, e por forma a esclarecer quaisquer conflitos de interesse, não gosto do Carlos Carvalhal (“CC”) por razões extra-futebol: ainda era treinador do Leixões, em deslocação a Alvalade e depois do jogo, tratou de ser extraordinariamente vulgar com uma amiga (que trabalhava na assessoria à imprensa). Desde então, não posso dizer que seja um avaliador totalmente objectivo das suas capacidades enquanto treinador. Mas as suas qualidades como treinador - hoje em disputa - nem sequer são o mais importante.

Como então devemos avaliar a decisão de JEB de contratar CC?

Parece-me que devemos abordar vários ângulos na resposta a esta questão.

1. As expectativas – conforme revela o título do post, mesmo excluindo um menor apreço pessoal ao CC, a surpresa que nos reservou JEB foi… uma má surpresa. Apesar de ser auto-explicativo, é útil explicar porquê.

As surpresas têm este condão de nos fazer ou imensamente felizes, ou torcer o nariz. E esta fez torcer o nariz à (acredito) esmagadora maioria dos sportinguistas. Este é o ponto de partida.

Numa pequena incursão na blogosfera leonina podemos constatar que a decisão de JEB foi “corajosa. É o termo adequado, pois nada diz sobre o seu conteúdo e tudo sobre a sua popularidade. A contratação de CC, mesmo nos termos anunciados, vai em sentido contrário às expectativas dos sportinguistas que, depois de verem goradas as hipóteses de contratar AVB – no que constituiu um revés enorme à auto-estima dos sportinguistas e do Sporting, pelas razões conhecidas -, esperavam um nome de peso para compensar. O nome veio, mas o de CC é ligeiro.

Por isso, para já é corajosa e veremos se acertada. O que é certo é que as condições que são oferecidas a CC são as piores que o Sporting pode oferecer. E são, também, as piores que a equipa pode obter.

A crise futebolística do Sporting é de métodos mas também de confiança. Como em tantas ocasiões referi, estranho era que o Sporting não ganhasse mais jogos com PB ao comando… porque quem tem melhores jogadores (e é o caso do Sporting em 90% da temporada) arrisca-se sempre a ganhar, quer num detalhe, quer pela força das evidências. E portanto, mesmo que os métodos estivessem errados – e estavam! – a actual crise do Sporting também passava pela descrença dos jogadores e o ambiente em torno da equipa, que condicionavam a performance.

A importância deste facto é partilhada por todos, PB e Barbosa incluídos, apenas a razão (ou a causa) para a ausência de confiança se discute. Enquanto PB e Barbosa culpavam a inexperiência, a qualidade e a pressão exterior, eu culpava os métodos, o modelo de jogo e as más decisões do treinador. Mas a falta de confiança é real.

Permitirá CC o tal choque metodológico, acompanhado da tal chicotada psicológica que faria a equipa render próximo do seu potencial? Veremos. O que é certo é que a sua contratação não virá resolver o enorme cepticismo dos sportinguistas em redor e, provavelmente, dos próprios jogadores sob o seu comando. E se a confiança, o acreditar nos métodos, eram decisivos no condicionar da performance da equipa em campo, parece-me que as circunstâncias ditam que CC tenha uma montanha enorme para escalar para ultrapassar o “momento” do futebol do Sporting.

Por isso, à partida CC parece ter sido atirado aos leões.


2. O contrato e a comunicação – Para já, apenas sabemos que o Sporting enviou para a CMVM a comunicação de que CC rubricou um contrato até ao final da temporada, reservando a opção ao Sporting para mais uma época (2010/2011). Não sabemos mais nada e isso é um erro, sobretudo se tivermos em conta a enxurrada de notícias sobre o futuro técnico da equipa (uma autoflagelação suscitada por JEB quando disse que queria resolver a questão do treinador muito rapidamente).

Não se percebe, aliás, que o Sporting comunique à CMVM a contratação de CC – até porque os mercados estão fechados ao fim-de-semana – desta forma, quando a poderia perfeitamente anunciar em conferência de imprensa, em que estivesse o treinador. Também uma questão de gestão das expectativas, era necessário que os sportinguistas pudessem compreender o porquê desta medida surpreendente.

Infelizmente, até à sua apresentação oficial, os sportinguistas terão de contentar-se com o currículo de CC para fazer comentário, com o facto de ter sido há bem pouco despedido de uma equipa que – de repente – passou a jogar um excelente futebol sob o comando de Mitchell van der Gaag, pelo facto de ter ganho apenas 2 dos 17 encontros ao comando do Marítimo, ou pelo facto dos desafios mais difíceis de CC (SCBraga e Marítimo) terem resultado em céleres dispensas. Isto é o primeiro erro do seu consulado (face à incompetência dos seus superiores hierárquicos, o próprio poderia ter-se lembrado…).

Portanto, o anúncio de um contrato até ao final da época, desprovido de qualquer explicação, é precisamente o contrário do que CC precisava para ter sucesso: é uma medida de desconfiança e um minar da sua autoridade ainda antes de entrar.

Nessa medida, para alguns sportinguistas, a contratação de CC poderia ser (na melhor das hipóteses) a concretização da medida que se impunha: a da contratação de um treinador por um período transitório, para preparar a vinda de um próximo, quer do ponto de vista técnico (estabelecer o perfil, diagnosticar necessidades da equipa, etc), quer na própria reorganização do departamento de futebol.

A contratação de CC poderia encaixar-se nesse perfil – embora não se perspective que CC tenha o perfil de alguém que trabalhasse na sua própria sucessão – mas essa explicação deveria ser contemporânea à da sua contratação. E a opção por mais uma época sugere que não será essa a missão de CC.


3. Trabalho – Mãos ao trabalho é que o que todos exigem neste momento, com a expectativa de saber o que dirá CC na sua 1ª intervenção pública como treinador do Sporting.

A CC não pode ser apontado que, face ao minar da sua própria autoridade, – pelos recentes dissabores da sua carreira – que tenha anuído entrar num projecto de condições tão precárias. Ofereceram a CC um bilhete de lotaria premiado, veremos o que fará com ele e o futuro imediato do Sporting depende muito da sua capacidade para alterar métodos, alterar mentalidades e cativar os sportinguistas. E mais, face às circunstâncias em que entrou no clube, CC não tem pressão nenhuma para falhar, pois é o que todos esperam que faça. Para CC é uma win-win situation.

Para o Sporting nem tanto… fosse esta uma temporada qualquer, seria relativamente indiferente quem conduziria a equipa até ao final da época. Apenas seria necessário trabalhar com afinco a próxima temporada nos moldes acima sugeridos.

Porém, nem parece ser isso que irá acontecer, que os responsáveis meterão mãos à obra para trabalhar o perfil e a contratação do treinador para a próxima época (ainda não percebemos quem são os responsáveis por estas decisões, se JEB autonomamente, se Sá Pinto, se Salema Garção, se outros), nem tão pouco o que resta desta temporada é indiferente para o futuro do clube: estamos em época de Mundial e o Sporting tem interesse em ver a qualidade dos seus jogadores premiada com a sua convocação, por causa da correspectiva valorização desportiva e financeira. Isso apenas acontecerá caso o Sporting volte a jogar um futebol com pés e cabeça.


4. Conclusões - Não acredito que haja um único sportinguista que não abane a cabeça em sinal de desaprovação perante a contratação de CC.

As circunstâncias em que foi efectuada são um murro no estômago no orgulho do clube. A divulgação da sua contratação, sem mais, concentra um conjunto de erros de apreciação sobre as suas consequências que é difícil de explicar para além da incompetência e com severas consequências práticas. Por exemplo, estava preparado para readquirir a minha GB e voltei a ter enormes reservas em fazê-lo. Custa-me ver dead men walking a caminho do banco em Alvalade. Era mesmo preciso um sopro de novidade ou a comunicação da preparação do futuro…

Não é tarde para começar a gerir bem o clube… mas esperamos que não seja necessário esperar 3 anos para que o senso comum volte a Alvalade.

Até lá, o sportinguismo vai sofrendo…